A invocaçao decery os anjos por meio do Grande Sello e do Sistema Enochiano, um arcabouço linguístico e operacional que se propõe a ser a linguagem primordial dos anjos.
Origens e Contexto Histórico
O sistema Enochiano emergiu no final do século XVI, durante o auge da Renascença, um período de intensa exploração intelectual, mística e científica na Europa. John Dee, matemático, astrônomo, ocultista e conselheiro da Rainha Elizabeth I, e seu colaborador Edward Kelley, um médium e possivelmente aventureiro, afirmaram ter recebido a linguagem e seus ensinamentos de entidades angélicas em uma série de "visões" e "chamas de chamadas" entre 1581 e 1587. Kelley, em particular, foi o principal receptáculo das comunicações, com Dee atuando como escriba e intérprete, transcrevendo os complexos vocabulários e gramáticas que, segundo eles, constituíam a língua celestial.
O contexto hermético da época, com o resgate e estudo de textos como o Corpus Hermeticum, a Cabala Luriânica e as tradições alquímicas, forneceu um terreno fértil para a aceitação e interpretação de tais revelações. A própria figura bíblica de Enoque, que "andou com Deus e não foi mais, porque Deus o tomou" (Gênesis 5:24), e que se acreditava ter sido elevado aos céus e introduzido nos mistérios divinos, serviu como epônimo para esta linguagem angélica, conferindo-lhe um pedigree bíblico e esotérico.
Estrutura e Características Linguísticas
O sistema Enochiano se manifesta em vários componentes interligados: a língua em si, um alfabeto único, um conjunto de 49 "Aethyrs" (ou Aethyrs) que representam planos de existência, e um corpo de "Angelic Calls" ou "Confere" (Chaves Enochianas), que são invocações em Enochiano destinadas a abrir portais para esses reinos e contatar os seres que os habitam.
A língua enochiana apresenta um vocabulário distinto, com palavras que não possuem paralelos óbvios em línguas terrestres. A estrutura gramatical, conforme documentada nos diários de Dee, é complexa, com regras para verbos, substantivos e sintaxe. O alfabeto enochiano, frequentemente chamado de "Runas Primitivas" ou "Letras Angélicas", é um sistema de escrita angular e visualmente impressionante, com cada letra associada a correspondências astrológicas e elementais. Essas correspondências são cruciais para a prática cerimonial, pois ativam o poder inerente de cada símbolo dentro do plano astral e material.
As 49 Aethyrs, em particular, formam um mapa cósmico, uma estrutura hierárquica dos planos de existência, desde os mais sutis e espirituais até os mais densos e materiais. Cada Aethyr é governado por um "Príncipe" angélico e está associado a um conjunto específico de anjos e energias. O movimento através das Aethyrs é facilitado pelas Chaves Enochianas.
A Prática Enochiana e Seus Desdobramentos
A principal aplicação do sistema Enochiano reside nas 49 Chaves. Cada Chave é uma invocação em língua enochiana, destinada a abrir um portal específico em uma das Aethyrs, permitindo a comunicação com os anjos que a governam. A recitação dessas chaves, acompanhada por rituais apropriados, incluindo o uso do Grande Sello (um tablet mágico com as correspondências das Aethyrs e dos anjos), forma a base da Opera Enochiana.
John Dee utilizou o sistema Enochiano em suas operações mágicas e espirituais, buscando conhecimento e discernimento divinos. Ao longo dos séculos, a Ordem Hermética da Golden Dawn e seus sucessores adotaram e adaptaram o sistema Enochiano, integrando-o em seus currículos de treinamento e práticas rituais. A Golden Dawn, em particular, atribuiu as letras enochianas a caminhos específicos na Árvore da Vida (em Sephiroth como Kether, Chokmah, Binah, Tiphareth, Yesod e Malkuth) e expandiu o vocabulário e as correspondências, criando um arcabouço para exploração espiritual e desenvolvimento pessoal.
A importância do Enochiano reside não apenas em sua estrutura linguística ou em suas invocações, mas em sua promessa de acesso direto aos reinos celestiais e aos conhecimentos arquetípicos que eles contêm. A prática requer disciplina rigorosa, estudo diligente e uma mente aberta à natureza transcendente da realidade.
Conclusão
O sistema Enochiano de Dee e Kelley representa uma das mais fascinantes e desafiadoras tradições mágicas ocidentais. Sua linguagem angélica, seus planos cósmicos e suas invocações oferecem um caminho para a exploração do divino e do oculto. Para o estudante sério do Hermetismo e da magia cerimonial, o estudo e a prática do Enochiano podem revelar novas dimensões da consciência e do universo, conectando o praticante com os ecos de uma sabedoria celestial que transcende o tempo e o espaço.
A prática requer a compreensão das correspondências com os 49 Aethyrs e os nomes divinos associados (como YHVH, ADNI, AHIH, AGLA, ARARITA, Elohim Gibor, Shaddai El Chai), além do uso do Grande Sello e dos rituais de Banimento (como o LBRP) e Invocação.
Para aqueles que buscam adentrar este domínio, a recomendação é iniciar com os estudos de John Dee e das posteriores adaptações da Golden Dawn, focando na compreensão teórica antes da prática, sempre com a devida cautela e sob a orientação de um mestre experiente.