Comecemos por desfazer um hábito antigo de pensamento. Chamamos de masculino e de feminino as duas metades de tudo, como se o mundo tivesse nascido partido em macho e fêmea e coubesse à biologia humana guardar a chave dessa divisão. Não é assim. O masculino e o feminino não são substâncias, e muito menos definições do corpo. São, quando muito, posições que alguém ocupa por um instante dentro de uma relação, e que trocam de lugar assim que a relação muda. O patriarcado precisou congelar essas posições, entregar uma delas ao homem e a outra à mulher e fingir que a natureza havia assinado embaixo. A natureza não assinou nada.
Debaixo do par que herdamos existem dois binários muito mais velhos e mais honestos: o quente e o frio, o úmido e o seco. Os antigos que estudavam a matéria e a alma sabiam que aqui estavam as oposições verdadeiras, e que masculino e feminino eram apenas apelidos apressados para elas. Mas repare no que quase todos deixaram de notar. O feminino não é o frio. O feminino pode ser quente, e quando é, o seu par cai no frio; pode ser frio, e então o par se aquece. A qualidade não gruda no sexo. Ela se distribui conforme a dança, e aquilo que chamamos de feminino é só o nome que damos a um dos polos no momento em que olhamos.
O mesmo vale para o úmido e o seco. Não há um lado que seja para sempre a água e outro que seja para sempre a secura. Há uma pessoa, uma força, um gesto que assume o úmido, e no mesmo instante o que lhe faz frente assume o seco, e na hora seguinte podem inverter-se sem pedir licença. O erro do patriarcado nunca foi reconhecer as qualidades. Foi amarrá-las aos genitais, como se o quente morasse entre as pernas de um e o frio entre as de outra.
Convém agora afastar o quente e o frio da temperatura da pele, porque foi essa leitura grosseira que fez tanta gente confundir tudo. O quente é o que se projeta, o que irradia para fora e gasta a si mesmo para agir; o frio é o que recolhe, o que adensa e conserva o que o outro dispersa. Suba um degrau e o quente se torna o impulso que rompe, e o frio, a forma que contém aquilo que foi rompido. Suba outro, e são a pergunta e o silêncio que a escuta. Em nenhum desses degraus existe homem ou mulher. Existem apenas duas maneiras de ser, que qualquer corpo, de qualquer sexo, veste e despe conforme a hora.
Agora cruze os dois binários e observe o que nasce. Quente com seco, e há Fogo. Quente com úmido, e há Ar. Frio com úmido, e há Água. Frio com seco, e há Terra. Dois pares apenas, e diante de nós está o quaternário inteiro do mundo, os quatro elementos em que tantas tradições reconheceram o alfabeto da criação. E note que nesse quaternário o masculino e o feminino não têm onde morar. A Água não é uma senhora nem o Fogo um senhor. São combinações de qualidades que se recusam a ter gênero, e é por isso que, ao alcançá-los, o velho par se dissolve e perde o sentido, como um nome de infância que já não serve ao adulto.
A Cabala percorre esse mesmo caminho e vai além dele. No princípio ela não fala de dois, fala de Ein Sof, o Sem-Fim, aquilo que precede todo número porque ainda não se dividiu em coisa alguma. Quando enfim se mostra, mostra-se primeiro como um par que parece macho e fêmea, o pai e a mãe supremos, e quem para aí jura ter achado no gênero a chave do universo. Mas o Sem-Fim não se deixa prender em dois. Logo revela outra face, e são três, as três mães de que fala o Sepher Yetzirah, das quais nascem os próprios elementos. Revela mais, e são cinco, os cinco semblantes em que a divindade se reconfigura. Revela mais ainda, e são sete, as sete potências duplas que constroem os dias e os planetas. E quando pensamos ter contado tudo, abrem-se doze, as doze vias simples que cercam o mundo como as bordas de um cubo, e entre elas paira um décimo terceiro que ninguém vê, o oculto, o ponto de saber que une aquilo que os outros doze apenas dividem.
Se a divindade é ao mesmo tempo dois, três, cinco, sete e doze, com um décimo terceiro escondido no meio, então o dois nunca foi a verdade. Foi só a primeira máscara, a mais fácil de vestir e a mais difícil de tirar. Masculino e feminino são essa máscara, útil por um instante e perigosa quando se esquece que é máscara. Aqui no Katoptron, que é espelho, devolvemos a cada um a própria face antes de qualquer sexo: quente ou frio conforme a dança, úmido ou seco conforme o par, e por baixo de tudo o Sem-Fim, que não é homem nem mulher porque é anterior à conta que inventou os dois.