O corpus de Nag Hammadi, em particular o tratado conhecido como "O Oitavo e o Nono", oferece uma lente única para a compreensão da ascensão na tradição hermética, situando-a não como uma fuga do material, mas como uma transfiguração do mesmo. Este texto, datado do século III d.C., emerge de um contexto onde as noções gnósticas de salvação e conhecimento (gnosis) dialogavam intensamente com o pensamento hermético alexandrino e as filosofias platônicas. A ascensão, neste contexto, é intrinsecamente ligada à reintegração das emanações divinas dispersas no cosmos, uma tarefa que exige a purificação do intelecto e a aquisição do conhecimento das esferas celestes e das divindades que as governam.
A Hierarquia Cósmica e a Ascensão em Sephiroth
O conceito de ascensão em "O Oitavo e o Nono" ecoa as estruturas hierárquicas encontradas na Cabala Hermética, especialmente no que tange à Árvore da Vida. A jornada para o Divino é frequentemente descrita como uma travessia através das esferas planetárias, cada uma governada por um arcanjo ou uma inteligência cósmica. A ascensão em Nag Hammadi pode ser correlacionada à progressão pelas Sephiroth, partindo de Malkuth (a Terra, o mundo manifesto) em direção a Kether (a Coroa, o Principio Uno).
- Malkuth (Terra): O ponto de partida, a esfera da manifestação densa e da ilusão material. A purificação em Malkuth envolve o reconhecimento da divindade imanente na matéria.
- Yesod (Fundamento): A esfera da Lua, ligada às imagens oníricas e ao mundo astral. A ascensão aqui requer o controle das faculdades imaginativas e a discernimento entre a ilusão astral e a verdade espiritual.
- Hod (Glória): Associada a Mercúrio, a esfera da razão e da linguagem. O adepto deve refinar seu intelecto, despojando-o de falsas premissas e compreendendo a ordem divina expressa através da lógica e da hermenêutica.
- Netzach (Vitória): Sob a influência de Vênus, a esfera das emoções e dos desejos. A purificação em Netzach implica na transmutação das paixões inferiores em amor divino e na compreensão da beleza cósmica como reflexo do Uno.
- Tiphareth (Beleza): O Sol, o centro de equilíbrio e a porta para os reinos superiores. Alcançar Tiphareth significa a unificação do eu com o Cristo Cósmico ou o Eu Superior, um pré-requisito para a ascensão subsequente.
- Geburah (Severidade) e Chesed (Misericórdia): Os pilares de força e expansão. A ascensão exige o equilíbrio entre a justiça divina (Geburah, Marte) e a compaixão (Chesed, Júpiter), compreendendo que ambos são aspectos da mesma Vontade Divina.
- Binah (Entendimento): Saturno, a Grande Mãe, a inteligência receptiva e a sabedoria profunda. Compreender Binah é decifrar os mistérios do universo e da criação.
- Chokmah (Sabedoria): Urano, o Princípio Paterno, a força ativa da criação. A fusão com Chokmah é a união com o ímpeto criativo primordial.
- Kether (Coroa): Neptuno, o ápice da Árvore, a unidade primordial. A ascensão final culmina na absorção e na compreensão da Unidade, não como aniquilação, mas como a expansão da consciência para abraçar o Todo.
A Gnosis como Chave Ascensional
"O Oitavo e o Nono" enfatiza a gnosis — o conhecimento direto e intuitivo do Divino — como o motor primário da ascensão. Diferente da fé cega ou do intelecto meramente discursivo, a gnosis é uma iluminação que revela a verdadeira natureza da realidade e do ser. No contexto hermético, este conhecimento está frequentemente associado à compreensão dos Mistérios Maiores e Menores, culminando na apreensão das leis universais e na identificação do divino interior.
Os textos de Nag Hammadi, como o próprio "O Oitavo e o Nono", detalham a estrutura do cosmos como uma série de emanações e níveis de existência. A ascensão é, portanto, um processo de reorientação da consciência, deslocando o foco do "eu" mundano para o "Eu" divino, que é co-essencial com o Criador. A aquisição de conhecimento sobre os nomes divinos, os arcanjos, as esferas celestes e os procedimentos para navegar por elas é crucial. Cada revelação gnóstica, cada nível de compreensão alcançado, representa um passo ascendente.
#### O Papel dos Nomes Divinos e da Linguagem Sacra
A importância dos nomes divinos (como YHVH, ADNI, AHIH) e da linguagem sacra é proeminente nos textos herméticos e em muitos dos escritos de Nag Hammadi. Acredita-se que os nomes divinos carregam o poder e a essência daquilo que nomeiam. A ascensão, então, envolve a invocação correta desses nomes, não como meras palavras, mas como chaves vibracionais que abrem as portas das esferas celestes.
As letras hebraicas, que formam os caminhos na Árvore da Vida (por exemplo, o Caminho 20 de Yod associado a Virgem e ao Arcano Maior O Eremita), são vistas como glifos de poder cósmico. A compreensão do valor numérico e simbólico de cada letra, como na Gematria e na Notariqon, permite ao aspirante desvendar os segredos da criação e manipular as energias sutis. A ascensão é facilitada pela assimilação da linguagem divina, quebrando as barreiras do entendimento profano e permitindo a comunicação direta com os reinos superiores. A capacidade de recitar corretamente os nomes das entidades cósmicas e as fórmulas de passagem é um componente vital da prática ascensional.
##### A Transmutação do Eu e os Quatro Mundos
A ascensão não é uma simples viagem espacial, mas uma profunda transformação interior, um processo que ocorre através dos Quatro Mundos herméticos: Atziluth (o Mundo Arquetípico), Briah (o Mundo da Criação), Yetzirah (o Mundo da Formação) e Assiah (o Mundo da Manifestação).
- Atziluth: O reino da pura vontade e da emanação divina. A gnosis de Atziluth é a compreensão do propósito primordial.
- Briah: O domínio das inteligências criativas e das forças cósmicas. Aqui, o adepto alinha sua vontade com a Vontade Divina.
- Yetzirah: O plano da formação, onde os arquétipos tomam forma como energias sutis e padrões psíquicos. A purificação em Yetzirah envolve o domínio das emoções e dos desejos. O ritual de Banimento Menor do Pentagrama (LBRP) é um exemplo de trabalho em Yetzirah, estabelecendo ordem e harmonia no campo astral.
- Assiah: O mundo físico, onde as energias se manifestam densamente. A ascensão em Assiah é a iluminação da matéria e o reconhecimento da presença divina no eu físico e no ambiente.
O processo ascensional é, portanto, um contínuo desdobramento e reabsorção desses mundos, com o adepto purificando cada nível. A invocação, por exemplo, pode ser vista como um meio de trazer as energias de Briah ou Atziluth para Yetzirah e Assiah, para que sejam integradas e compreendidas. O Ato Mágico em si, uma vez que os rituais de banimento e invocação foram completados, representa a manifestação concreta da vontade ascensional no plano terrestre, impulsionada pelo conhecimento adquirido.
Conclui-se que "O Oitavo e o Nono", em consonância com a tradição hermética e as correntes gnósticas, descreve a ascensão como um caminho intrincado de aquisição de conhecimento, purificação das faculdades e transmutação do ser, culminando na reintegração do eu com o Princípio Uno através de uma jornada pelas hierarquias cósmicas e pelos Quatro Mundos. A prática contínua, a meditação sobre os mistérios divinos e a aplicação das ciências ocultas são os meios pelos quais este estado de unidade e compreensão pode ser alcançado.