Hermetismo

O Oitavo e o Nono: Textos Herméticos de Nag Hammadi e a Ascensão

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A tradição hermética, em sua vasta tapeçaria de sabedoria, frequentemente alude a planos celestiais ou esferas que os buscadores espirituais devem transpor para alcançar a divindade ou o Nous. Dentro do corpus de Nag Hammadi, em especial nos textos que se desdobram em cosmologias gnósticas com claras influências herméticas, encontramos uma elaborada arquitetura de reinos celestiais. Dentre estes, a ascensão através do Oitavo e do Nono Céu é particularmente significativa, representando etapas cruciais na jornada da alma de volta à sua origem divina.

Os Oito Céus e a Ascensão do Alma

Frequentemente, a cosmologia hermética, ecoando em textos gnósticos, descreve um sistema de esferas planetárias que a alma deve atravessar após a morte do corpo. Cada esfera é guardada por arcontes, entidades que tentam reter a alma ou exigir tributos de conhecimento. A superação desses guardiões não se dá pela força, mas pelo conhecimento gnóstico – o conhecimento das verdadeiras origens da alma e dos nomes divinos que a protegem. Este conhecimento, adquirido em vida através do estudo e da iluminação, permite que a alma responda corretamente às perguntas dos arcontes e siga adiante. O Oitavo Céu, em muitos desses sistemas, representa a esfera das estrelas fixas, um plano de transição onde a alma se liberta das influências cíclicas dos planetas inferiores e se aproxima da esfera supralunar.

Em textos como a Pistis Sophia, embora com uma estrutura mais complexa e gnóstica, a ideia de ascensão através de reinos é central. No contexto mais estritamente hermético, a referência a um número específico de céus planetários, frequentemente sete, culmina em um oitavo nível que transcende o movimento cósmico manifesto. No entanto, a inclusão de um Nono Céu nos textos de Nag Hammadi, ou em interpretações subsequentes que dialogam com essas tradições, sugere uma expansão dessa cosmologia para acomodar realidades ainda mais elevadas.

O Nono Céu: A Esfera do Inefável

O Nono Céu, em muitas tradições místicas e esotéricas que se inspiram no hermetismo, é frequentemente associado ao Empíreo ou à Morada Divina Primordial. É a esfera que está além do cosmos visível e inteligível, o reino do Silêncio, do Um, ou do Deus Inefável que transcende toda a manifestação. Se o Oitavo Céu representa a libertação das influências planetárias e a aproximação da verdadeira Fonte, o Nono Céu é o destino final, o lugar de repouso e de união com o Absoluto. É aqui que o buscador, tendo completado a jornada de ascensão e superado todas as ilusões cósmicas, encontra a sua verdadeira natureza, que é idêntica à do Divino. A apreensão deste estado não é meramente intelectual, mas uma experiência de ser, uma fusão ontológica.

Correspondências Herméticas e o Tarot

A ascensão através dessas esferas celestiais encontra paralelos na Árvore da Vida kabalística, onde cada Sephirah representa um nível de consciência e manifestação. A jornada através das esferas planetárias pode ser mapeada nas sendas e sephiroth da Árvore da Vida, culminando em Kether (Coroa), o ponto primordial de onde toda a existência emana, e além dela, o Ain Soph Aur – o Infinito Sem Limites. Por exemplo, a liberação das influências planetárias (Netzach, Hod, Yesod) pode ser vista como um preparo para ascender através de Tiphareth (Beleza/Sol) em direção a sephiroth superiores. A superação dos arcontes ecoa a necessidade de desenvolver as virtudes associadas a Chesed (Misericórdia) e Geburah (Julgamento) para equilibrar as energias necessárias na ascensão. A culminação no Nono Céu assemelha-se à apreensão de Kether, ou mesmo ao transcendente Absoluto que está além de todas as dez sephiroth.

No Tarot, as cartas que representam a conclusão de ciclos e a iluminação podem ser vistas como arquétipos dessa ascensão. O Mundo (XXI), representando a totalidade e a realização, pode simbolizar a chegada à oitava esfera ou a recompensa da jornada. A Estrela (XVII), a esperança e a inspiração divina, a orientação na escuridão. O Sol (XIX), a clareza, a iluminação e a vivificação. Cartas associadas a Yod (Kether) e a Chokmah (Sabedoria), como O Eremita (IX – Yod, Caminho 20, Virgem, associado ao Sol em alguns sistemas, mas Yod é primordial) ou O Mago (I – Yod, Caminho 1, Fogo, associado a Kether/Primeiro Movimento), podem ser vistas como representações dos estágios iniciais da jornada em direção aos reinos superiores. A libertação das ilusões do mundo material (Malkuth) para ascender é um tema recorrente.

Conclusão e Prática Espiritual

A exploração do Oitavo e do Nono Céu, tal como apresentada em fragmentos herméticos e textos gnósticos de Nag Hammadi, não é meramente um exercício cosmográfico, mas um mapa para a transformação espiritual. A ascensão é um processo ativo de despojar-se das ilusões do ego e das amarras materiais, e de adquirir o conhecimento salvífico que permite à alma reconhecer e reclamar sua verdadeira herança divina. A prática hermética, através da meditação sobre os Nomes Divinos (como YHVH Elohim, ou Shaddai El Chai), da contemplação das esferas e da correspondência dos arcanos do Tarot, oferece ferramentas para que o buscador inicie essa jornada ascendente, aproximando-se do limiar do Nono Céu, onde a união com o Inefável aguarda.

O ato de realizar um Banimento Menor dos Pentagramas (LBRP), seguido de uma invocação específica e, finalmente, um ritual de sigilo ou de manifestação (Ato Mágico), pode ser visto como um microcosmo da ascensão. O Banimento limpa as influências inferiores e caóticas (os arcontes do caminho inferior). A Invocação chama a luz divina e o conhecimento superior. O Ato Mágico é a manifestação desse conhecimento no plano de Assiah, simulando a chegada a um estado de plenitude. O encerramento com o Banimento finaliza o processo, retornando o praticante ao seu estado normal, mas transformado pela experiência.

As correspondências: Oito Céus (Planetas + Estrelas Fixas) podem ser correlacionados com o sistema de mundos: Assiah (Terra – a jornada inicial), Yetzirah (Ar – a formação do conhecimento e a superação das influências astrais), Briah (Água – a apreensão das verdades divinas e o contato com as emanações superiores) e Atziluth (Fogo – a união com o arquétipo divino, a fonte primordial). O Nono Céu transcende esses mundos, sendo o reino do Absoluto, para além de toda manifestação.

Cada passo na compreensão desses reinos celestiais é um passo na própria evolução da alma. O conhecimento é a chave, e a experiência é o caminho para desvendar os mistérios do Oitavo e do Nono Céu.